AMIGOS

 

Jóia maior!...
Miguel Rossouwisky


     Começo por supor, nos ares, o desenho
     de um verso magistral procurando agasalho.
     Cabe a mim (sou poeta ) encontrar um atalho
     para vê-lo nascer nos recursos que tenho .
    
     Com as rimas gentis nas estrofes, me empenho
     em ser original. ( Poucas vezes eu falho ).
     Já nem ouso explicar se é prazer ou trabalho
     exibir ao leitor as farturas do engenho.
    
     O esmeril dá-lhe o brilho e lhe poda as arestas...
     Assim é que se faz um soneto bonito,
     para ser declamado em saraus ou em festas.
    
     Ninguém pode dizer o valor de uma jóia,
     se polida não foi pela mão do perito.
     É na lapidação que a beleza se apóia.

VIDA... QUATRO ESTAÇÕES

    
     PRIMAVERA a sorrir... Esperança e alegria
     armando festivais de sonhos no caminho.
     Manhãs de bem-te-vis que mal deixam o ninho
     e aprendem a voar, sem asas, todavia.
    
     E sucede o verão... Amor e fantasia...
     e os anseios a dois, envoltos no carinho.
     Nos sonhos, desta vez, ninguém fica sozinho,
     há sempre uma ilusão fazendo companhia.
    
     Outono... Folhas caem amareladas... Lentas...
     E o sonho a farfalhar:- Cumpri o meu dever!...
     E o por de sol já triste em tardes modorrentas...
    
     E a velhice depois... Invernos enfadonhos...
     Folha murcha, no chão e a saudade a varrer,
     destroços de ilusão... Cadáveres de sonhos...

Poesia é mentira... Mas consola...

    
     Os sonhos são mentiras em gaiola
     encarceradas pelo meu talento.
     Com rimas, posso abrir a portinhola
     e deixá-los voar ao firmamento.
    
     Poesia é mentira...Mas consola,
     por isso sou feliz...(ou aparento).
     Eu juro que aprendi ser bandeirola
     cheia de cores a brincar no vento.
    
     Quando falo a verdade, não me aprumo...
     Desaprendi andar em linha reta
     de tanto rodopiar ao léu, sem rumo.
    
     Não me chamem Pinochio, por favor!
     Se o sonho é a realidade do poeta,
     eu penso ter futuro promissor.

A Intrusa

    
     Teimava em me seguir, eu bem que percebia...
     Tinha modos gentis. Simpática (não bela) .
     Não queria assustar-me, andava com cautela,
     diferente do andar da grande maioria.
    
     Eu sempre recusei lhe fazer companhia,
     embora esta mulher me fosse sentinela
     em horas de descanso. Eu não gostava dela
     pela insistência atroz com que me perseguia.
    
     Seu nome? Não sabia. Apelidei-a a Intrusa.
     Eu lhe fechava a porta, exibindo a recusa
     de comigo a reter na partilha do lar.
    
     No espelho, certo dia, atrás de mim postou-se...
     Quis irritar-me? Sim. Mas disse com voz doce:
     - Eu me chamo Velhice e vim para ficar.