AMIGOS

 

DESERTO
Maira Beatriz Hengers


  
   Pelo opaco lustre da sala,
     a janela como companhia
     permanecia insistindo na noite
     de fendas negro-aveludadas
     alimentadas por horas,
     momentos asfixiados
     Tempo enclausurado
     sufocando o gozo da alma,
     enquanto a vida pedia
     e perdia por entre os dedos.
     Na tela da parede violetas mortas.
     Pra quem sabe o preço
     eu tranco a porta
     quando as curvas de meu corpo
     pedem a ilusão de tuas mãos
     e a ânsia morna de tua boca.

CÓLERA


    
Aprendi minhas primeiras perdas
     com gatos-do-mato noturnos
     rondando a lona,
     das paredes selvagens a nos proteger.
     Socorria-me nas listras do colchão de palhas,
     que eu mesma as rasgava para enchê-lo,
     e nas molas de minha cama escura.
     Hoje, os ratos roem meus temores
     e o silêncio de minhas noites.
     Quando a justiça injusta
     quer ruir o destino de meus versos:
    
     - Sou MULHER!

SEGREDO

Sou formada de ausências
mas o tempo
me dá novas forças
a substância da própria vida
que é diferente:
o sonho, o desejo
transformando a pele
sinto medo
vem o prazo da existência
eu rasgo as cortinas
para o sol
entrar em mim.