AMIGOS
 

O LAÇO DE FITA
Castro Alves


   
  Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores...
     Prendi meus afetos, formosa Pepita.
     Mas, onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
     Não rias, prendi-me
     Num laço de fita.
    
     Na selva sombria de tuas madeixas,
     Nos negros cabelos de moça bonita,
     Fingindo a serpente que enlaça a folhagem
     Formoso enroscava-se
     O laço de fita.
    
     Meu ser, que voava na luzes da festa,
     Qual pássaro bravo, que os ares agita,
     Eu vi de repente cativo, submisso,
     Rolar prisioneiro
     Do laço de fita.
    
     E agora, enleada na tênue cadeia,
     Debalde minh´alma se embate, se irrita...
     O braço que rompe cadeia de ferro,
     Não quebra teus elos,
     Ó laço de fita!
    
     Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
     Os astros se libram na plaga infinita,
     Os anjos repousam nas penas brilhantes...
     Mas tu... tens por asas
     Um laço de fita.
    
     Há pouco voavas na célere valsa,
     Na valsa que anseia, que estua e palpita.
     Porque é que tremeste?... Não era meus lábios...
     Beija-te apenas...
     Teu laço de fita.
    
     Mas, Ai! Findo o baile, despindo os adornos,
     Na alcova onde vela ciosa... Crepita
     Talvez da cadeia libertes as tranças,
     Mas eu.. fico preso
     Num laço de ita.
    
    
     Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
     Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
     Ao menos arranca meus louros da fronte,
     E de por c´roa
     Teu laço de fita.

 

O POVO AO PODER - Castro Alves


          Para oferecer Castro Alves aos meus amigos, tomo a palavra a Norlândio Meirelles de Almeida, em seu livro CRONOLOGIA DE CASTRO ALVES: Percorria o poeta as ruas de Recife, quando viu na mais larga praça, uns estudantes, jornalistas e homens do povo, que ouviam atentos um orador que, com uma eloqüência invulgar, com verbo inflamado, pregava idéias republicanas e abordava a condição social da época, caracterizada por um marcante contraste entre as classes. Aos olhos do poeta, que, admirado, a tudo assistia, aproxima-se a polícia e o comício é dissolvido a tiroteio e a patas de cavalo. O tribuno que era Antônio Borges da Fonseca, é conduzido à prisão. Castro Alves, formoso adolescente de 17 anos, que não escondia o seu entusiasmo pelas idéias do orador que acabava de ouvir, assoma à tribuna e se vê à frente do povo. Sua voz firme, que até então o público não conhecia, era mais poderosa e com maior vigor atinge a alma da turba. Suas palavras faziam fremir os mais indiferentes e acalmar os mais revoltados. A massa e alguns policiais se deixam tomar de êxtase e, estarrecidos ouvem O Povo ao Poder.

Quando nas praças se eleva
Do povo a sublime voz,
Um raio ilumina a treva,
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada,
Com o pé sobre a barricada,
Desgrenhado, enorme e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Cossuth.

A praça! A praça é do povo,
Como do céu o condor!
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!
Senhor, pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça!...
Só tem a rua de seu.
Ninguém vos rouba os castelos,
Tendes palácios tão belos...
Deixai a Terra ao Anteu.
........................................

Mas embalde... que o direito
Não é pasto de punhal
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! Não muitos Setembros!
Da plebe doem-se os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
.....................................

Irmãos da terra da América,
filhos do solo da cruz,
erguei as frontes altivas,
bebei torrentes de luz!
Ó soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto ó povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações!

          Esse foi o primeiro contato com os republicanos, fecho o poema ainda com a voz de Norlândio Meirelles.


Lúcia

Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.

Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
 
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
 
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.

Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.
"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto!...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
.......................................................................

Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo...
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...
 
epílogo
Muitos anos correram depois disto...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
- Co' o cântaro à cabeça — pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros...

Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
 
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna...

Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!
                       São Paulo, 30 de Abril de 1868